Mundo Vertigo RIP Len Wein

Estão sendo tempos difíceis para os fãs da Vertigo. Muitos autores queridos andam se despedindo desta existência terrena. Len Wein, cocriador do Monstro do Pântano, morreu dia 10/09, domingo, após uma cirurgia que aparentava ter sido feita com sucesso.

Além do Monstro do Pântano, Len Wein participou da criação de diversos X-Men ao lado de Dave Cockrum, incluindo Noturno, Tempestade e Colossus. Ele também foi cocriador do Wolverine e responsável direto por passar o bastão do Monstro para Alan Moore.

Descanse em paz, Len.

Em memória, segue abaixo a introdução publicada em Monstro do Pântano: Raízes Vol. 1, na qual ele fala sobre a criação do Monstro.

[Reproduzido de Swamp Thing: Dark Genesis, encadernado lançado em 1991 nos EUA.]
A gente não tinha ideia de que criaria uma lenda.
Naquela manhã cinzenta de dezembro de 1970, quando peguei o trem “E” nos arredores do Queens em direção a Manhattan, tudo em que eu pensava era qual seria meu próximo trabalho. Como roteirista profissional de quadrinhos com dois anos e meio de atuação, sobrevivi vendendo principalmente histórias curtas de mistério para as revistas de antologia da DC, Marvel e da lamentavelmente finada Gold Key Comics, a maior parte já extinta, mas não esquecida.
No decorrer da viagem de meia hora, tive um vislumbre de uma ideia para uma história. Uma aventura de amor repleta de perigos, assassinatos e, ao fim, vingança. Por que decidi tornar o protagonista uma espécie de monstro do pântano, um arremedo mucoso de homem, não me recordo mais. Mas essa decisão estava destinada a mudar o rumo de minha carreira.
Quando cheguei ao escritório da DC Comics, tinha a premissa muito bem delineada na cabeça e corri para a máquina de escrever mais próxima (naqueles tempos todos usávamos máquinas de escrever) para colocar a ideia no papel.
Apresentei a proposta de uma página em espaçamento simples para Joe Orlando, o editor de The House of Mystery e The House of Secrets, entre outras séries. Coincidentemente, Joe andava pensando em fazer uma história nos moldes de It, a clássica obra de terror de Theodore Sturgeon, que é sobre um desajeitado monstro do pântano. (E eu nunca a havia lido até a excelente adaptação de Roy Thomas para a Supernatural Thrillers, da Marvel, alguns anos depois.) Joe leu minha sinopse entusiasmado, fez algumas sugestões (como o Monstro perder o bracelete dado pela esposa no fim da história), deu o sinal verde e fui pra casa trabalhar no roteiro.
Apenas mais um dia na vida de um roteirista freelance morto de fome, pensei.
No final de semana seguinte fui a uma festa pré-final de ano na casa de meu parceiro de longa data, Marv Wolfman. Mais tarde naquele dia, por razões que infelizmente não lembro, eu estava escorado no meu carro no gelado ar da tardinha com Bernie Wrightson olhando a neve cair e proseando. Bernie tinha terminado há pouco com sua namorada e estava meio deprimido. Falei que sabia como ele se sentia. E aí tive a chance de mencionar que estava trabalhando numa história que combinava com o nosso humor. Sugeri que ele podia se interessar em ilustrá-la como um jeito de exorcizar seus demônios, e ele prontamente concordou.
E assim nasceu a lenda.
A história curta de oito páginas foi publicada em The House of Secrets 92 e, para deleite de todos, foi um sucesso imediato. As vendas indicaram a edição como o título mais vendido da DC naquele mês. As cartas chegavam aos montes, trazendo emoções tão fortes quanto a própria história. Para os chefões da DC, o próximo passo parecia óbvio: capitalizar em cima desse inesperado fenômeno. O “Monstro do Pântano” se tornaria uma série regular.
Infelizmente, Bernie e eu pensávamos diferente.
Para espanto da DC, tanto Bernie quanto eu dissemos “não” quando fomos procurados para continuar com o Monstro do Pântano. Aquela história teve um grande impacto emocional em nós dois e não queríamos estragar isso diluindo a premissa original. Desnecessário dizer que o fato não deixou o então publisher, Carmine Infantino, bem como os mandachuvas da DC, muito felizes. Pelos meses seguintes eles tentaram nos convencer a seguir com o Monstro, mas recusamos sistematicamente.
Cara, como éramos idealistas.
E incrivelmente estúpidos.
Quase um ano depois de concluída a história, de repente me ocorreu que não precisávamos continuar contando a vida de Alec Olsen, nosso protagonista original, para criar a série. Qual o problema de criarmos uma nova criatura do pântano para ser nossa estrela? Em uma palavra: nenhum.
Inebriado com minha genialidade, liguei para Bernie e contei a ideia. Ele hesitou no começo, mas acho que meu entusiasmo o contagiou. No fim da ligação eu já o tinha convencido. Agora só faltava convencer a DC.
Segunda de manhã bem cedo (um milagre para aqueles que sabem que horas costumo acordar), eu estava sentado em frente a Joe Orlando com um sorriso idiota na cara. Um minuto depois, Joe também estava sorrindo. Tudo que restava era conseguir a aprovação dos superiores de Joe, uma tarefa que deve ter demorado uns bons quatro ou cinco segundos. No Natal, já tínhamos um conceito pronto. Em março, tínhamos a primeira edição. No verão de 1972, tínhamos cavado nosso próprio lugar na história dos quadrinhos.
Bernie sairia da publicação bimestral após dez edições. Eu saí três edições mais tarde. Vários outros bravos tentaram prosseguir o melhor que puderam, mas o Monstro do Pântano era nossa visão pessoal. Depois de mais uma dúzia de números, o título deu seu último suspiro. Morte por eutanásia.
Anos depois, então como editor sênior na DC, sugeri a Jenette Kahn – a mandachuva da época – que ressuscitássemos o Monstro do Pântano para vinculá-lo ao iminente filme, e ela concordou de primeira. Primeiro, sob a égide de Martin Pasko e Tom Yeates, então em uma impressionante sequência por Alan Moore, Steve Bissette e John Totleben, seguidos pela visão única de Rick Veitch, Doug Wheeler e Nancy A. Collins, com o auxílio de mais artistas do que sou capaz de lembrar, o Monstro do Pântano continua a deixar sua marca viscosa na indústria.
A série gerou dois filmes, um seriado, uma série animada e uma linha de brinquedos.
Hoje em dia, a expressão “Monstro do Pântano” se tornou comum. Uma busca recente em um sistema de computadores encontrou mais de trezentas referências a ela, a maior parte não relacionada ao personagem.
Nada mau para uma figura que começou sua vida em uma história de oito páginas publicada em uma antologia de mistério. E quem sabe o que o futuro pode trazer?
Então calce suas botas, prepare a rede antimosquito e junte-se a nós nessa incrível jornada ao coração do bayou da Louisiana. Uma aventura épica está para começar.
Len Wein, 1991


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