Vertigo?

Publicações Panini

Tudo começou na Inglaterra. Para ser mais exato, na barba de Alan Moore, que ele coça e enrola antes de digitar os roteiros. Foi dessa barba inspiradora que saíram Monstro do Pântano e Watchmen, dois trabalhos para a DC Comics que incontestavelmente revolucionaram os quadrinhos nos anos 80. Foram obras tão fora dos padrões que a DC percebeu que não conseguiria nada parecido dos escritores americanos, com seu molde inquebrável para roteiros há pelo menos duas décadas. Para conseguir mais, era preciso falar com os compatriotas de Moore.

A editora Karen Berger foi destacada para visitar o Reino Unido em 1987. A missão: conhecer a cena de quadrinhos britânica e trazer bons currículos. Conversou com um roqueiro escocês de 20 e poucos anos, Grant Morrison, que conhecia toda a história do Universo DC. Com um jornalista, Neil Gaiman, chegado em histórias de terror. Com um amigo de Moore, Jamie Delano, cujo emprego era motorista de ônibus. E com Peter Milligan que, como os outros, também experimentava com HQs para a clássica revista inglesa 2000 A.D.

Berger voltou pra casa cheia de propostas para revitalizar a DC. Cinco anos depois, o Homem–Animal e a Patrulha do Destino de Morrison haviam redefinido os limites dos gibis de super–heróis, a Hellblazer fundada por Delano era a melhor série de terror do mercado, Peter Milligan tinha Shade – The Changing Man e um arquivo inesgotável de ideias… e Sandman, de Gaiman, era a HQ mais aclamada dos anos 90.

O Monstro do Pântano

O Monstro do Pântano

A HBO DOS QUADRINHOS

Morte – O Preço da Vida 1 foi a primeira HQ Vertigo, lançada em janeiro de 93. Todas as séries citadas acima, mais Monstro do Pântano, passaram a sair com o design especial das capas Vertigo – verdadeiras obras de arte, fortes como uma capa de livro, voltadas para um leitor mais exigente. Dave McKean, trazido a tiracolo por Gaiman, era o capista em que todos se espelhavam com as pinturas, colagens, esculturas e interferências digitais que criava para Sandman. Em outras palavras, era a cara da Vertigo.

Ter uma linha formada significava que mais séries, minisséries, edições especiais, graphic novels, o que desse na telha, poderia ser lançado sob o mesmo guarda–chuva, sendo o selo garantia de leitura de alta qualidade. Enigma, de Peter Milligan e Duncan Fegredo, foi a segunda minissérie. Sandman Mystery Theatre, por Matt Wagner e Guy Davis, foi a primeira série já nascida Vertigo. Mercy, de J.M. DeMatteis e Paul Johnson, o primeiro especial. Na categoria “o que desse na telha”, o selo até publicou um livro sobre tarô, junto a um baralho especial com os personagens Vertigo representados por Dave McKean.

A reputação da Vertigo se baseava em fatos do mercado: grande parte de seus leitores e leitoras não lia outros gibis. Alguns esperavam as edições encadernadas, lançadas em livrarias, em vez de comprar as revistas convencionais – numa época em que ainda não era comum achar quadrinhos na livraria. No fim da década de 90, o selo chegou a ser chamado de “a HBO dos quadrinhos” – em referência ao canal de produção de vanguarda (Família Soprano, A Sete Palmos) que se identificava pelo slogan “não é televisão, é HBO”. Portanto: “não é HQ, é Vertigo”.

Morte: Neil Gaiman

Morte: Neil Gaiman

SANDMAN E AS SÉRIES QUE TEM FIM

Apesar de impulsionada pelos britânicos, o selo aceitou escritores americanos já no seu início – desde que não seguissem o padrão, claro. J.M. DeMatteis só teve projetos aprovados porque havia feito Moonshadow e Matt Wagner por conta de Grendel, dois trabalhos que também conquistaram leitores adultos. Mas os britânicos seguiam como referência.

Um deles, o irlandês Garth Ennis, salvou a linha do desastre. Sandman era o maior sucesso de vendas e crítica da Vertigo, mas Gaiman insistiu em encerrar sua saga em 1996. O selo perdia sua grande estrela. Preacher, de Ennis – um escritor que já havia criado alguns fãs com sua passagem por Hellblazer –, veio correndo do banco de reservas. Mais pop, a história do reverendo, da assassina e do vampiro em busca de Deus foi o grande trunfo da linha pelo resto da década.

Voltando a Sandman, vale lembrar que a série criou um padrão de séries finitas que a Vertigo segue até hoje. Afinal, se você ficar tentando contar histórias com o mesmo personagem pra sempre, eventualmente vai perder qualidade – e essa não é a política da Vertigo. Preacher foi pensada desde o início com um final, assim como sucessos posteriores da linha, por exemplo 100 Balas e Y – O Último Homem. Definitivamente não é o comportamento tradicional do mercado de quadrinhos estadunidense.

Sandman

Sandman

SEM GÊNEROS

A Vertigo da década de 90 era tratada como a escolha certa para boas leituras de terror e fantasia. A Vertigo de hoje é tratada como a escolha certa para boas leituras, ponto. 100 Balas, de Brian Azzarello e Eduardo Risso, por exemplo, trouxe para o selo o gênero policial gangsta. JáTransmetropolitan, de Warren Ellis e Darick Robertson, e Y – O Último Homem, de Brian K. Vaughan e Pia Guerra, a ficção científica.

Fábulas, de Bill Willingham, mantém o gênero da fantasia muito bem representado – e é o maior sucesso da Vertigo atualmente. Escalpo, de Jason Aaron e R.M. Guéra, e ZDM e Vikings, ambas criadas pelo escritor Brian Wood, fogem de qualquer definição. E a linha não para de investir emgraphic novels autobiográficas, jornalísticas, de crítica social, de humor. Definitivamente, não há mais um gênero dominante.

Ao mesmo tempo em que retorna ao Brasil, a Vertigo está inovando ao subdividir–se nos EUA com a linha Vertigo Crime, para explorar o filão aberto por 100 Balas e outras publicações do gênero policial. E volta a explorar a velha tática de buscar no além-mar: o escritor escocês Ian Rankin é o responsável pelo primeiro lançamento, a graphic novel Dark Entries.

Em um mercado crescente de leitores nas livrarias, a Vertigo responde pela maior parte das vendas da DC no segmento, mostrando que dezesseis anos depois de fundada, ela continua na vanguarda.

Fábulas

Fábulas